Somos Noses

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domingo, 29 de agosto de 2010

Por que ARTE-EDUCAÇÃO?


O termo ARTE-EDUCAÇÃO tem sido utilizado com frequência nos dias atuais; mas o que seria de fato a arte-educação? Um trabalho artístico no âmbito escolar? Ou a educação através da arte? Nesse caso, a arte seria então apenas uma ferramenta? Ela é sinônimo de entretenimento? Então por que incluí-la no currículo escolar? Qual a importância da arte na formação do educando?
Essas e muitas outras dúvidas pairam sobre a cabeça de muitos educadores, coordenadores e diretores, pais e alunos. Gostaria então de propor a discussão sobre alguns pontos para tentarmos refletir sobre essas inquietações...

Muitas das reclamações de alunos sobre a aula de Arte, ainda hoje, derivam da distorção de entendimento por parte dos professores acerca da função da arte na escola, e conseqüente abordagem pedagógica, como já colocado no post “Como você trabalha com arte? – Um panorama do ensino da Arte no Brasil”. Alguns professores insistem em abordar a arte como “aula de descanso”, como uma pausa entre as aulas “principais”. Acontece que houve um momento da história do ensino da arte que se caracterizou pela livre-expressão, pela espontaneidade e pela valorização do processo ao invés do produto final; a chamada ESCOLA NOVA. Acredito que foi a má interpretação dessa proposta que gerou uma confusão acerca da importância da arte na escola. Muitos professores confundiram o conceito de “livre expressão” com “pode tudo”, deixando os alunos soltos, sem direcionamento algum, e justificando tal postura pela não interrupção do fluxo criativo do aluno. Pura distorção! A ideia dos criadores dessa proposta pedagógica era colocar o professor como orientador, estimulador dos potenciais criativos dos alunos e, portanto, peça de fundamental presença para a adequação das atividades para cada aluno ou grupo. Outra conduta ainda comum nas aulas de arte dizem respeito à reprodução de imagens apenas, limitando a arte à cópia – volta-se assim à ESCOLA TRADICIONAL – ou ainda mostrando técnicas de desenho e pintura com manuais, como na ESCOLA TECNICISTA. Como veremos a proposta da Arte-educação é maior que isso…

Então passamos do conceito “Aula de Artes Plásticas” para “Arte-Educação”. Para começar, separemos as palavras. Comecemos pela segunda palavra: “Educação” nos lembra não apenas a escola, mas qualquer proposta de ensino-aprendizagem que vise a transformação. Em primeira instância, educar é transformar – a si mesmo e o outro. Assim, podemos incluir, além de escolas, ONGs, museus e quaisquer outros aparatos culturais que promovam essa “trans-formação” das pessoas. Mas como se daria essa transformação? A outra palavra presente no binômio nos dá essa pista: Arte. Há pouco tempo atrás, ter aula de arte significava ter aula de Educação Artística, que abordava exclusivamente conteúdos das artes visuais. Isso mudou. Atualmente, dentro desse contexto educacional, falamos em Arte enquanto quatro linguagens principais: Teatro, Dança, Música e Artes Visuais. Isso se deu pelo surgimento dos Parâmetros Curriculares Nacionais publicados em 1997, que se aplicam ao ensino regular das escolas no Brasil e, no entanto, influenciaram a maneira como se entende a arte-educação como um todo. Segundo tais parâmetros, todo aluno deve ter, juntamente com o ensino de disciplinas como português, matemática e ciências, o ensino de Artes. Dessa forma a Arte foi reconhecida como uma forma de conhecimento – é um instrumento em si, e não apenas uma ferramenta para auxiliar o ensino de outras matérias. Assim como a matemática tem os números como fundamento da sua área, a Arte também traz a especificidade de cada linguagem. Portanto, a proposta da Arte no currículo é importante porque busca justamente mostrar ao educando outra forma de conhecimento e interação com o mundo: o viés artístico. Ajusta-se aí a proposta triangular de Ana Mãe Barbosa para o ensino de Arte: fazer, apreciar e refletir.

Mas se é uma forma de conhecimento como as outras, então por que precisa da junção da palavra “educação”? Não se fala “Português-educação’, “Ciências-educação”,“Geografia-educação”… O fato é que ainda precisamos desse reforço para justificar a prática pedagógica na área de Arte, como pontua Ana Mae Barbosa:

"Como a matemática, a história e as ciências, a arte tem domínio, uma linguagem e uma história. Se constitui portanto, num campo de estudos específicos e não apenas em meia atividade [...] A arte-educação é epistemologia da arte e, portanto, é a investigação dos modos como se aprende arte na escola de 1° grau, 2° grau, na universidade e na intimidade dos ateliers. Talvez seja necessário para vencer o preconceito, sacrificarmos a própria expressão arte-educação que serviu para identificar uma posição e vanguarda do ensino da arte contra o oficialismo da educação artística dos anos setenta e oitenta. Eliminemos a designação arte-educação e passemos a falar diretamente de ensino da arte e aprendizagem da arte sem eufemismos, ensino que tem de ser conceitualmente revisto na escola fundamental, nas universidades, nas escolas profissionalizantes, nos museus, nos centros culturais a ser previsto nos projetos de politécnica que se anunciam. (1991: 6-7)

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