Como você trabalha com arte na escola? Essa questão que parece tão simples guarda em si diversas inquietações dos educadores. Se observarmos a trajetória do ensino de arte no Brasil, veremos que diferentes propostas ocorrem simultaneamente, e com isso muitos educadores ainda hoje misturam diversas orientações didáticas e várias concepções de arte em suas práticas. E isso só favorece a confusão a respeito da importância da arte no ambiente escolar... Não, aula de artes não é descanso entre as outras disciplinas, distração, recreio, nem aula de fazer nada... Arte é um conhecimento! Mas esse é um conceito recente; voltemos ao começo...
Como mostram Ferraz e Fusari, uma primeira tendência que surgiu a respeito do ensino de arte foi a Idealista Liberal, cujo discurso era de que a educação, sozinha, poderia garantir a construção de uma sociedade mais igualitária. Dentro dessa tendência, surgiram várias propostas pedagógicas de ensino...
Na proposta da ESCOLA TRADICIONAL (anos 30) arte era sinônimo de “fazer”: o que realmente importava era o produto final, a reprodução de um modelo. Para começar, não existiam aulas de artes, e sim de Educação Artística. Nessa, priorizava-se apenas a linguagem das artes visuais (na época conhecida como artes plásticas). Só nos anos 50 música, canto orfeônico e trabalhos manuais se integram ao currículo. Teatro ocorria apenas nas festas de fim de ano ou em datas comemorativas. Ainda por volta dos anos 50/60, dissemina-se outra proposta iniciada nos anos 30 com John Dewey, Viktor Lowelfeld e Hebert Read que, inspirados em Piaget e Jung, fundam a ESCOLA NOVA. Sua proposta, em contraponto ao modelo tradicional, era de valorizar o processo do fazer artístico, estimulando a livre expressão (dado subjetivo e individual). Por volta dos anos 60 e 70, chega ao Brasil a proposta da ESCOLA TECNICISTA, que visava instrumentalizar o aluno para o mercado de trabalho, aliando assim os interesses da sociedade industrial. O behaviorismo de Skinner era a base psicológica utilizada, pautada na proposta de estudos dirigidos de forma mecânica e racional (uso de manuais). Instaura-se aí, por exemplo, a aula de Desenho Geométrico, colocando agora a arte como subordinada a outras disciplinas, como a matemática e as ciências.
Uma segunda vertente apontada por Ferraz e Fusari para o ensino das artes é a tendência Realista Progressista, momento em que se passa a discutir a importância da escola para a conscientização do povo. É a partir desse momento da história, por volta dos anos 60, que a arte começa a ser um pouco mais valorizada no ambiente escolar. Passando pela ESCOLA LIBERTADORA (com práticas não diretivas, cujo símbolo maior é Paulo Freire), e pela ESCOLA LIBERTÁRIA (cuja proposta era a autogestão e a autonomia), chegamos à proposta da ESCOLA CRÍTICO-SOCIAL DE CONTEÚDOS no fim da década de 70. Nessa ideia, buscava-se o meio termo: nem só a técnica, nem a livre expressão, mas um direcionamento a partir dos interesses reais de cada aluno ou grupo de estudantes, validando assim seus conteúdos acumulados e em produção em prol de sua participação social e exercício da cidadania. Já no fim do século XX surge a ESCOLA CONSTRUTIVISTA, cuja proposta mantém a reflexão da arte como objeto sociocultural e histórico, utilizando a Arte agora como forma de conhecimento em si, não apenas instrumento para outras disciplinas. Adota-se os três eixos de aprendizagem propostos na abordagem triangular de Ana Mãe Barbosa: o fazer artístico, a apreciação dos trabalhos (próprios e alheios) e a reflexão sobre tais objetos.
E foi justamente nesse momento histórico que se criou a LDB 9394/96 e se estabeleceu nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) a Arte como componente curricular obrigatório em suas quatro linguagens: artes visuais, música, dança e teatro. Assim, a Arte passou a ser reconhecida oficialmente enquanto forma de conhecimento, um SABER a que todos os educandos devem ter acesso. Mas será que isso de fato ocorre na escolas?
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